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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Summer

Todos os dias reparo no ar e no chão, é uma espécie de roço pelo dia. Fora isso, acho que a vida não faz sentido. Em Angola, chegado à adolescência deixei os calções, os joelhos tinham-se afastado demasiado da terra. A verdade porém, no fundo, não era essa.  No planalto, não havia calor suficiente nem para crianças hiperativas, o que predominava era o preconceito de que em África fazia calor, e pronto. Entrado na meia-idade voltei às captulas (calções, em umbundo), olho para o céu, piso bem a terra, tento acertar com o mijo numa borboleta, e os dias fazem logo outro sentido. Só lamento é a constipação.
 
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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Casal da Marinha.

Por um conjunto de fatores, as hortenses este ano encheram os jardins e as bordas das estradas. A hortense é uma flor gregária, junta-se a outras formando uma moita com a dimensão adequada às paisagens, às serras e aos vales (manchas de cordilheiras ficam bem ao fundo). E já vi paredões de castelo diminuírem-se com hortenses. Este ano, por causa da humidade e da frescura, ei-las galáxias à mão. ...E o Vasco Graça Moura: "elemento proscénio".
 
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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Melhor é erguer



Fui cedinho para a escola, a minha ideia era fotografar e filmar uns afoitos pardais do telhado. Dentro da rigorosa oficina onde se dão aulas de educação física, sempre houve ninhos e pássaros. Muitas crias morriam de quedas lá do alto das vigas-mestras e os alunos chegaram a agarrar as próprias mães exaustas. Mas este ano, à altura da cabeça de um professor de barbas, fizeram o ninho no fundo de uma caixa de roldana. Uma caixa que fica numa zona de passagem e perto de uma porta. Imaginem um ninho atrás da orelha. Não fossem aqueles voos à helicóptero geoestacionário e que hipnotiza alguns imberbes e eu hoje não me teria levantado tão cedo.
 
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quinta-feira, 5 de junho de 2014

O dia matricial

Nasci a seis de junho de 1957. Vou levar um bolo de chocolate para a sala de professores e pagar o café a todos os funcionários da escola. Chega, como bom tímido que sou, escapar-me-ei por portas e corredores e direi umas patacoadas de circunstância a quem vir de supetão. Ainda guardo sossegos do primeiro dia, um seis de junho sem vento que abanasse os bambus da pequena lagoa,
 
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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Atestar


Dou-me à terra como ninguém, em privado, na esperança de no futuro ser bem servido, ser confortavelmente aconchegado. Mas a terra também devolve a curto prazo. Já me tinham dito que as favas são as hortenses mais competitivas, são rápidas e exigem pouco trabalho: basta uma sachadela e aí estão elas contadas.  Tenho andado num steady state bacano, momento que eu considero muito agrícola, mas que me torna ambiciosamente inferior. Temos de viver com o que queremos e eu quero é terra. Ilustro o post com umas bombas de gasolina, na certeza que compreenderão a metáfora. Pleno de vida, despeço-me. Até já. Até já, morte.
 
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domingo, 27 de abril de 2014

Domingo à tarde


Vivem-se momentos de pasmaceira fascista. Há bandas filarmónicas à frente do  mosteiro e veem-se todos os poupadinhos da região a passear nesta tarde de domingo pelo Rossio. Onde dizem que houve uma moura encantada, há ruinas; no pinhal, um vento brando de costumes (zéfiro), aconchega-o. O fascismo é só isto: sol muito mal aproveitado.
 
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segunda-feira, 24 de março de 2014

101, 102...

Lembro-me particularmente de uma, a de um velho, meu vizinho do andar inferior. Fui ao funeral porque me senti obrigado, eu fora o seu último amigo. Desde esses primeiros tempos de Benedita até ao dia de hoje, cheguei às cem com facilidade. Upa, upa: mais a da colega, a do rapaz da Lagoa das Talas, a da «tia», a do gajo que ficou sob a roda do trator, a de um dos patriarcas do Pego, a do puto cinco estrelas, a do retornado do planalto angolano, a do filho da puta... a de tantos, todos com nome. Nenhuma de «ninguém». A morte é, de facto, de um convívio excelente, é diária e almoça connosco, e girando em torno, mirando-a sentimos que o nosso nome vale muito e tanto como o de todos que nada vale.
 
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terça-feira, 11 de março de 2014

Estranhos

O melhor que hoje me aconteceu foi apanhar do chão um pequeno ramo de alecrim meio pisado. E agora que escrevo o episódio lembro-me de um homem que me acompanhou, a mim e ao meu pai, pelos limites da nossa propriedade em Pontével. Já não sei o que fazíamos por ali, mas o senhor, de vez em quando, abaixava-se e apanhava uma pedrinha. Quando se foi embora comentámos o estranho comportamento. Seriam conchas? e sorríamos. O meu pai gostava de flores. Mas fosse pó, sorriria na mesma. Para ele (termino já), o mundo estava à mão de coletar.
 
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segunda-feira, 10 de março de 2014

Dizer ou não dizer

Há tempos, creio que foi num blogue, li que há um povo deste grande e diverso mundo que cataloga os cheiros com nomes próprios, abstratos como os nomes que demos às notas musicais e às cores. Hoje, abri o livro do «sol», isto é, o livro do sol abstrato, e o que li? sol «quentinho», sol «redondo», sol «alumiador», sol «gotas de orvalho brilhantes». A conquista abstrativa da linguagem simplificou a comunicação humana mas mandou «muitas coisas», inclusivamente afetos, para a cave. Ficou só o incompetente verbo. Dizer sol como as lagartixas dizem é a melhor forma de sermos.
 
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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Neva

Basta sabermos todos que filho de peixe sabe nadar e pronto, está explicada a minha especialidade em agricultura. Ando a curtir azeitonas e, prolífero, dou-me conta a temperá-las com tudo e mais alguma coisa. Segurelha é agora a última moda, vou apanhá-la amanhã de manhã junto ao bucólico riacho saltitante. Entretanto, soube que o Cavaco vai ao funeral do Mandela vestido à Gandhi. Até arrepia com o frio que faz. Políticos à parte, também sou todo vosso. Love.
 
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pequenas mas honestas

Não quero escrever sobre dias irrelevantes, se é que o tempo que passa, por aqui é relevante. Mas... hoje, uma amiga contou-me que lhe foi proposta, há pouco tempo, a ideia de por no papel pequenos contos picantes (foi como ela disse). Nada, mas nada tem isto de especial ou de relevante.
- E então?!;
- Então?!.. tenho 35 anos e sou virgem.
Mentira ou verdade é de chorar a rir.
 
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terça-feira, 2 de abril de 2013

Acuidade

Com o ar lavado de poeiras nenhum filtro fica para coar a realidade: resta-nos a paisagem com que nascemos, a força da nossa primavera. E não se trata só da época do ano, este é o tempo dos falcões, um zeitgeist próprio de oportunistas - e viva a chuva intercalada com sol -. O governo incentiva agora o "empreendedorismo" com um personagem saído das feiras medievais, não fosse a expressão tão gasta e diria que é um vendedor de banha da cobra. Também reparamos no Silva Peneda a prometer porrada à Alemanha. Resistamos à tentação de não florir.
 
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quarta-feira, 27 de março de 2013

A tesão é uma árvore

Segundo me consta, nada existe para além da matéria. O universo, em expansão ou em implosão, contém Tudo. E este Tudo abarca em si o Nada, o Vazio e até os não conceitos. Quando alguém, muito célere e mediador, pergunta e o que há para além dos limites do universo?, do ponto de vista físico é uma não questão porque ela é materialmente inconcebível. Na década de setenta - e fico-me por aí - explicaram-me estas coisas com uma analogia: imaginemo-nos a querer chegar às fronteiras do universo dentro de um balão que vai enchendo à velocidade da luz; quem conseguiria chegar à fina parede de borracha? Não desanimem, eu hoje dormi doze horas, doze, e a necessidade desta voltinha pelas galáxias foi só para vos dizer que até as saborosas torradas que acabei de comer contêm os termos desta questão: são hóstias para o desconhecido.
 
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segunda-feira, 25 de março de 2013

Numa redoma

No sábado - os sábados são dedicados ao património -, atirei-me à casa de banho pequena: a cabine do poliban já metia nojo, a tampa do recoletor de águas do chão estava partida outra vez e o teto tinha pontadas de bolor. Estas coisitas mais o Expresso e um pastel de nata da Jomafel preencher-me-iam a manhã. Tudo em duas horas se tivesse ajuda, não precisava de uma pessoa com mãos, bastava que não fosse coxa. Assim, foi o sábado todo. Houve paciência apesar das caralhadas e a nova cabine de tão frágil de afinar se mostrou que até tenho medo de me meter lá.
 
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quarta-feira, 20 de março de 2013

20 de março

 
Um 'mal' distribuído pela terra e pelo céu 
 
Nós somos uma ou mais personas, raramente genuínos, quase nunca únicos. O mundo pressiona-nos para uma permanente negociação com a realidade e aí, para sobrevivermos, cedemos quase sempre. Mas no fundo, desta gestão, desta arte autonómica depende a nossa felicidade. São os momentos solitários os mais felizes? E os tais momentos "contra o mundo todo" serão os excecionalmente felizes? Não sou especialista mas, na ausência da infelicidade não me sinto particularmente bem. Cuidem-se.
 
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quarta-feira, 13 de março de 2013

Crónica livre

Ponho demasiadas vírgulas, dizem. É como os pelos, cada um usa os que tem e onde quer. Treze mil milhões de anos luz de alcance, é verdade?  Deus sem capataz é sinal de feriado, aproveitem. Está quase, quase a chegar a primavera - neste preciso momento ouvi um corvo, ó, agora é uma turca, tenho a janela aberta porque me peidei. Não fosse a forte vontade em ser livre e a primavera seria uma quimera.
 
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sábado, 9 de março de 2013

Sacrifícios

Gambitos. Gambitos e truques audaciosos. Ao chegar à escadaria do hospital àquela hora da noite sem vivalma, alarmou-se com a ausência do soldati que deveria estar ali de guarda. E ao ver surgir da cerrada  e fria névoa dois faróis de morte, o homem meteu a mão no bolso do sobretudo e fez o vulto de uma pistola; fê-lo com coragem, olhar desafiador e com a ponta do dedo espetada e saliente, pronta a disparar. O carro afastou-se lentamente. Foi assim, ou mais ou menos assim, por este processo de armamento, que um dos Corleones se iniciou no gangsterismo. Em causa estava a proteção  do pai e padrinho de clã, acamado no hospital. Destinos, fados. Gambitos é diferente. Hoje, sábado, fui à escola, como não tinha net, nem podia imprimir distrai-me com o problema de xadrez do DN. E nada de gambitos.

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Estou aqui X

 
Ontem levei com o peso de infantis (1 kg) na cabeça. Diz quem viu que a minha safa foi o amorti feito à força do pensamento. Em questões de segurança não costumo facilitar, mas garotas com balas de canhão na mão... Bem, na verdade mal o senti, hoje doeu-me a cabeça mas foi do lado oposto, e amanhã estará nos pés. Foi notícia carago, faço milagres.
 
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Sequelas, ainda da queda que dei quando estava na baliza (há 45 anos): tenho vertigens. E na altura eu voava no dorso de um poderoso cisne. Oh, quanta prospetiva falhada, quantos ditados enganadores, quantas mães carinhosas.
 
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 Governo: vou mascarar-me. Adeus.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Treino

Nunca li um livro de autoajuda mas não tenho nenhum preconceito em relação a este tipo de literatura. A bem dizer até encontro alguma eficácia nas suas fórmulas, contar até vinte para nos passar uma fúria, por exemplo.

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sábado, 10 de março de 2012

Março



Observar o minuto de sol que a Terra acrescenta às tardes por esta altura do ano é mais do que olhar as compridas sombras, é ler o velho tratado "os saltos de pardal". 

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