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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sexta feira


Vitória

Já vi vários rebentamentos. No topo do Parque Eduardo VII há um e na Cela Velha, no concelho onde resido, em homenagem ao general Humberto Delgado, há outro. Neste último desabrochar os estilhaços «caíram» longe e isso é uma originalidade. Encontrarmos peças à distância remetem-nos para as impressionantes forças do vulcão e da sua tampa. Mas as flores também explodem, abrem-se e projetam-se nas pétalas. Szymborska morreu. Cumpriu-se o ciclo e ficaram os pedregulhos.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Segunda feira, andar.


Acho que a única liberdade que tive na vida foi a de pés. Descalço, quando era muito miúdo, sentia o pó vermelho da rua como veludo. E quando piso o chão, hoje, sinto que me levantei. Outra e outra vez, passo a passo. A liberdade que julgo ter é a dos pés.

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Abrir o saco dos ventos


Ontem levei as minhas famosas sapatilhas de bicos à concentração de atletismo. Tenho muita estima por elas porque nos meus vintes passeei-as encavalitadas aos ombros. Ganhei-lhes amor assim, mexendo-lhes, pesando-as, dobrando-as, acarinhando-as. Numa profunda identificação intelectual e afetiva, dirão vocês. Mas não, era mais comunhão mística. Levei-as para as mostrar, para falarmos delas, mexer. E assim foi, ninguém se atreveu a mais do que isso, calça-las seria pior que abrir o saco dos ventos.

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sábado, 7 de janeiro de 2012

Burro de carga


A determinda altura da nossa vida haverá razões objetivas para pararmos de correr. Suponho que até serão fáceis de elencar: físicas, sociais... Só não compreendo os meus motivos, mal explicados, da vontade de não fazer nada. De ficar absolutamente só. De falar a todos de igual modo e afeto. E por cada habitante da terra que se cruzar comigo, mais uma gota, mais leaves, mais ar respirável. Se pudesse era já hoje, ia ao café e... nada. Jacó, uma imperial.

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domingo, 4 de dezembro de 2011

O mundo em stacatto


Os portugueses são berberes e há DNA deles no setentrião
Erguem-se impérios, rodam impérios
Giram estrelas, fogem sóis
Índios, outrora donos de terras, refugiam-se em ilhas de álcool
(Há índios na Rússia e até na Escandinávia)
O forte torna-se fraco e o fraco, forte
Há uma mundialidade para quem os ingleses são escravos
Há vida no fundo do mar em condições que se julgavam impossíveis para o amor
Há plantas com estratégias de caça
Existem estéticas ocultas mais belas que as visíveis
E um braço do teu deus, ó homem, tem tanta força! e no entanto é feito de ar
Uma hierarquia de pino é tão eficaz como a de queixo e nariz para cima
A união tem a eficácia de uma manada de zebras
No alto da cadeia alimentar estão os mais precários de todos
Numa orquestra nada funciona se um desafinar, caso contrário não seria orquestra
Por cada poeta: um Evaristo Carriego

Em conclusão:
Há uma desordem e ela talvez confunda os nossos braços de carne
E esse é talvez o único, o único argumento que os faça mexer.

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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

M. Sousa


M. Sousa desviou-se da marcha da caravana
Para apanhar uma flor;
Um dia - disse mais tarde -, fiz parte da Grande Marcha,
Mas não podendo falar no e em meu nome, na coluna,
Troquei-o por todos os nomes.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

-sauro


A poesia, como o casaco, tem dois lados: verso de dentro e verso de fora. Quem faz versos faz casacos e veste-os literalmente: o pêlo junto à alma e os botões para fora. Um poeta não é mais que um artesão que sabe de lados e nenhum poema é mais que a pele curtida ao vento e ao sol.

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Da natureza

Tudo é indiscreto na torre dos ventos uma curiosa construção octogonal onde se encontram, em relevo, alegorias aos ventos com origem nos pontos cardeais e colaterais: Bóreas (norte), Zéfiro (oeste), Eurus (leste), Nótus (sul), Kaikias (nordeste), Apeliotes (sudeste), Lips (sudoeste) e Siroco (noroeste). Desde os relógios de sol, um em cada parede, ao cata-vento, passando pela clepsidra e, com certeza pelas conversas dos homens e mulheres que frequentavam a ágora, tudo é público com exceção dos próprios ventos: se quiséssemos sentir o Apeliotes teríamos que ir à parede oposta à indicada pela grimpa do cata-vento. Um nome resguarda outro. A terra é redonda, e assim sucessivamente.

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