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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mao revisitado

Lá está ele abandonado, até pela quimioterapia. A sua biografia cabe em quatro linhas: em criança coseu sapatos à mão, foi para Moçambique como guarda prisional e ser dono de uma esplendorosa sapataria. Voltou pobre, mas tem uma caçadeira para se guardar - já o vi, com ela, a espantar pessoas, tudo por causa de solas -. Nem mais nem menos (como as quatro linhas): pobre, mas de caçadeira.

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sábado, 24 de março de 2012

Meias-solas



Fui arquivar umas revistas à 'casa-velha' e de caminho passei pelo Jaquim. Estava mais animado, «com mais força», e tinha visitas, um homem dos seus oitenta anos, calejado, limpo e com as calças salpicadas de lixívia. Por cada palavra que dizia sorria como se tivesse largado pela boca um lagarto azul. Eu nunca tinha ouvido falar em ranchos para as vindímas do Cadaval e já estou na região há mais de vinte e cinco anos, mas parece que era habitual na década de cinquenta. Faziam os sessenta ou setenta quilómetros a pé. -«Chamavam-nos 'malteses', e não sei... mas a palavra soava-nos a 'escravos'».

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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Cair andando


Há tempo que não ia à 'casa velha'. Quando estava a carregar uns baldes de lenha oiço um ganir de socorro. Vou até à voz, fininha de desespero, e pergunto o que se passa. «Não tenho força nas mãos, vizinho»; «isso pode ser da coluna, mostre-as lá», apalpei-as, toscas, quentes, e com sensibilidade. «eu sinto-as, mas não tenho força nelas para nada»; «não interessa, pode ser na mesma da coluna». A Maria, a mulher, mexe os lábios atrás dele: «é cancro». Ele desconfia e geme, «os médicos pensam que é daqui» e aponta para o abdómen. «Não é nada, nós temos dois tipos de nervos, um sensitivo e outro motor, e os nervos motores das mãos estão presos algures na coluna, comprimidos pelas vértebras». Vim todo caminho arrependido de lhe ter dito o que lhe disse depois. «Então, e se for uma coisa má, qual é o problema Djaquim?, não me diga que não é capaz de olhar para os seus 84 anos e reconhecer que viveu?».

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