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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Mensagens

"Os verdes do mato não acabam" esteve para se chamar "Tchissingui, terra longe demais". Qualquer dos títulos serve o tema tratado no livro, mas o segundo diz-me diretamente respeito. O Tchissingui (Chissingue, como eu gosto pronunciar), foi a casa onde nasci. Quanto ao livro, é do Nini, filho dos donos desta casa-maternidade, o casal Coutinho. Não sou muito literário, nem nos sentimentos, mas ainda assim trabalho as minhas mensagens: "se pudéssemos escolher o sítio do nosso nascimento, eu escolheria o meu fadado".

Dei com o João Coutinho, o Nini, mais a sua obra, neste blogue.

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sábado, 12 de maio de 2012

"Quadros"


Assim a modos de sapateiro a olhar para sapato: Marjane Satrapi reproduziu alguns quadros em Persépolis. Notei um Schiele, precisamente numa personagem austríaca, um indiscretíssimo Miguel Angelo, e um caríssimo Munch. Seria um bom exercício voltar atrás com a preocupação de encontrar mais "quadros" mas ainda tenho algumas páginas pela frente e eu, sinceramente, não estou aqui neste mundo para achar eventuais coincidências.

sábado, 31 de março de 2012

1984 - Mary

Um dia mandaram-me abrir algumas covas, subi para a mini-escavadora de lagartas, e a ruça, que sorria muito e varria com luvas, olhou-me como se eu me fosse desaparecer num buraco. No mundo das toupeiras, das minhocas e dos escaravelhos, a terra está em primeiro lugar, querida. É a casa, e eles não concebem a existência de outros mundos. Ouves lá fora o barulho do trânsito? Como é bom estar aqui na paz da terra e senti-la a exalar e a aconchegar-nos.

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sexta-feira, 30 de março de 2012

1984 - Kléber

Um dia, cedo, apareceu-me no portão do Cemitério de Santa Maria o Kléber. O Kleber era, e se está vivo ainda há de ser, um médico brasileiro que andava em tirocínio pela Europa a fim de ganhar coragem para voltar ao Recife. Fez o curso na republica da Casal Ribeiro em Lisboa e foi lá que o conheci. Saudações feitas, contou-me que lavava doentes mentais perigosos com mangueirada. Numa cela com grades, o doente, nu, ora virava-se de costas, ora ficava de frente. Havia dois tipos de jatos, com sabão e só água. «não há 'aclaramento'?» - perguntei, fazendo humor. «Eles gostam pr'a caralho, Paulo».

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quinta-feira, 29 de março de 2012

1984

Em Londres passei por vários episódios picarescos relacionados com mortos e com os familiares dos respetivos Extintíssimos. Os meus europeus mais chegados sempre foram os que se mexeram pouco, velhos, crianças, doentes... e os ingleses mortos do cemitério maioritáriamente católico. Sintonias unionistas ou federativas à parte, na preparação final dos cadáveres, quando os vestiamos, por exemplo, os membros ficavam de tal maneira rijos que muitas vezes partiam-se os braços e as pernas para caberem dentro da urna. O Gibsy, qual caçador ansioso, mandava sair os entes queridos, fechava a porta e era o primeiro torno a dar cabo dos corpos tetanizados.

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quarta-feira, 7 de março de 2012

Legado pio


Legado pio e está tudo dito

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segunda-feira, 5 de março de 2012

Através do vidro


Ó Rui, nenhum rapaz sente, pensa e diz dessa maneira o mundo. Para narrador de romance vá, para narrador de romance rapaz, não. Com essa voz, não, pareces uma garina. Olhar para o biquíni da tua irmã, Rui, e para o cabelo dela, mas quem é o gajo que olha para essas coisas? Vou na página 104 e, ou as dores de alma que te estão a fazer crescer funcionam à maneira e te engrossam a voz, ou eu, sinceramente, considero a tua história uma merda. Vou até ao fim e logo te digo.

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sábado, 3 de março de 2012

Blankets - um mundo demasiado grande

Como o livro tinha um auto-colante com a bandeira portuguesa no plástico que o envolvia comentei qualquer coisa com o empregado (e a partir de ontem, decididamente, vou sempre fazer reparos quando comprar livros). Disse-me então o rapaz, que tinha vendido um exemplar em inglês ao Miguel Guilherme. - A quem?!; - e ele, genuinamente incrédulo: - ao Miguel Guilherme, não conhece o Miguel Guilherme ...o ator?!; - ah, sim, sim... - e lembrei-me de um Guilherme que fazia os «apanhados». Mas ainda confuso, quando cheguei a casa fui ao «Google imagens». E sim, conheço-o, tanto a ele como ao dos «apanhados».

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domingo, 11 de dezembro de 2011

A melhor Bertrand (ontem)


A Bertrand de Aveiro tem uma península de livros que vai até à porta. Quem entra depara-se com o topo daquela longa banca de feira. É um sinal, "aqui, Manhattan".  As bancas bem feitas arruinam-nos, e se entramos de barco, então...

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Miséria


No tempo da Severa (1820-1846) e do "fado marinheiro" (1840), considerados os primeiros registos conhecidos da canção de Lisboa, a capital do reino e os seus africanos eram visos assim por um estrangeiro:


«A mania política tem acometido todos os habitantes da capital, desde o fidalgo e o par do Reino até às fezes da plebe. Apenas os pobres pretos das possessões portuguesas de África, que passeiam aos milhares pelas ruas de Lisboa, são os únicos que não discutem em política, ao menos segundo me consta; mas também não são tratados como homens pelos portugueses, porém como uma raça ruim de animais domésticos. Caiam, durante o máximo ardor do sol, as paredes exteriores das casas e no fim das corridas de touros lançam-se contra a fúria exacerbada daqueles animais. Quando chegam a envelhecer, arrastam-se mendigando pelas ruas de Lisboa, contaminados de enfermidades nauseabundas; com barbas encanecidas que produzem um efeito hediondo nos seus rostos negros». 


- "Portugal em 1842", Félix de Lichnowsky (1814 - 1848).