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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Abril, abril...

Em finais de novembro, num canteiro com cerca de 25 m2, semeei alho e ervilhas, mas nunca mais lhes dei confiança. Hoje, fui lá mondar o matagal de ervas. Na parte dos alhos tudo correu às mil maravilhas, quando cheguei às ervilhas estava à espera que as plantinhas tivessem uma tabuleta que as sinalizasse. Chamei o vizinho e confessei a minha ignorância. Muito prazer, donas ervilhas. O canteiro cheira bem, ó vizinho, serão ervilhas-de-cheiro? Só conheço de comer, professor. Estas lógicas é que me fodem, fumo ao longe, no fundo do vale, tarde com cheirinho desconhecido mas agradável, e o estomago é que se põe com ar triunfante.
 
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

No mar, curto

 
Em terra, maltês
 

Amanhei dois canteiros: estonei-os superficialmente, filei a erva tenrinha com a forquilha e pu-la em montes; cavei-os fundo e por fim alisei-os com o ancinho. Já tenho duzentas favas para semear num e, salvo erro, vinte e cinco cabeças de alho que, numa média de oito dentes, dá mais de duzentas sementes para enterrar quatro centímetros cada uma, no outro canteiro. Amanhã à tarde agarro nas duas pranchas largas e compridas que estão no canil, coloco-as na terra mimosa e, muito eu, começo o trabalho de regos e semeadura: quinze por vinte e cinco nos alhos e quarenta por quarenta no faval. Entretanto queimo algum mato e as cinzas ala, diretamente para os canteiros. É para lá, falo eu, que as minhas, ainda quentes, deveriam ir.
 
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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Magia



A Casavelha é um prolongamento dos meus braços. Então, expliquei aos novos inquilinos o seu «funcionamento»: aqui, esta zona é onde a temperatura é mais estabilizada, as paredes são de pedra, e se as quiserem brocar chamem-me porque podem apanhar uma junta e as buchas não se seguram; a porta de vidro da banheira abre para dentro, estes armários de tijolo precisam de ventilação para não ganharem humidade; etc., etc. Por cada defeito o casal enchia-se de amor, ...Os meus braços em olhos sorridentes.
 
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quinta-feira, 13 de junho de 2013

«Heart of darkness»

Na minha vida, cobras foram muitas. Hoje, mais duas. A primeira, embora protagonista de um episódio marcante, não é assim muito digna de registo para uma biografia. Portanto, depressa à segunda: a minha primeira cerejeira está carregada, muitas das milhares de cerejas até já têm a cor preta de maduras. Os vizinhos, os amigos, os conhecidos, os habitantes dos concelhos limítrofes, todos, porque todos possuem cerejais, nenhum tem cerejas por causa dos melros. O que eu fiz: comprei uma «cobra», enrolei-a num ramo da minha primeira cerejeira e, pelas tardes dos dias, passo por lá para ver os nervosos melros. Enlouqueci.
 
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terça-feira, 4 de junho de 2013

Estética «negra»

 
O mesmo apelo de um cão «assassino»
 
Há muitos anos, em Angola, ouvi de alguém uma frase que me intrigou bastante. Só percebi o alcance de «não tenho com quem conversar» quando me tornei adulto e muito tempo depois de me lavrar, gradar e cultivar. Hoje, voltei a lembrar-me dela ao ter perdido o amigo António Rosa Mendes. «Ouvir e falar com quem», pode ser, sim, a dúvida duma vida. O Rosa Mendes, entre todos os meus amigos e conhecidos, era dos que mais elevava as conversas.
 
Pela segunda vez vi um corvo em cativeiro e tal como da primeira vez, voltei a ficar embasbacado. A impressão imediata é de inteligência, da vivacidade profusamente demonstrada nas bicadas, nos vaivéns, nos «ladrares» e noutras vocalizações para chamar a atenção. Depois, é o corpo que é forte, luzente e com perfil aerodinâmico, um conjunto de partes bem proporcionadas, sobretudo na agressiva mas elegante ligação entre a cabeça e o bico. Andava à procura de estrume quando fui parar àquele bazar. Desde o corvo, ao proibidíssimo corvo, até artigos para higiene, de tudo há para venda naquele sítio. Trouxe alhos mas podia ter trazido um tonel. Ainda hesitei.
 
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sábado, 1 de junho de 2013

Falaropos


 
Bolha de nível
 
As mais de trinta medas de palha compactaram. O vento e a chuva deram consistência àquelas figuras arredondadas e lisas.  Metendo por baixo e bem fundo a forquilha consegui transportar algumas inteiras para o terreno compostor. Já tinha pensado na possibilidade de haver surpresas debaixo do capim, mas com o tempo fresco e depois de várias semanas a andar ali a roçar, sempre pensei que este ano não seria ano de bichezas. Não foi uma cobra mas um alicranço, cobrelo pequenino, uma miniatura que aterrorizava o vizinho, já falecido. Entre os livros e o povo, nem sempre vou pelos livros. A literatura diz que o alicranço não é venenoso, o meu vizinho, já enterrado, dizia que era. Pelo sim pelo não, fechei os olhos e deixei-o fugir.
 
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quarta-feira, 22 de maio de 2013

O ar zangado


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É um princípio somatológico mas também emocional, social, psicológico, etc.: o homem não se divide (como não se mede aos palmos). E na unidade e medida da pessoa, «Deus», enquanto «suprema angústia», faz parte de «Nós». Eu sou ateu, mas não chego à noite e atiro as pernas para um lado e o fígado para o outro. A diferença é que, o meu «Deus» - que não sai -, apenas não é deificado. Bom, adiante, o poema de Wallace Stevens da terça feira foi um despropósito. Nem foi pelos twites que também li, publiquei-o porque já o conhecia e a associação foi imediata. Não pensei nas vítimas. Siga, o capim está todo cortado rente ao chão, gastei dez litros de gota e já o amontoei em mais de vinte medas enormes. Agora vou podar, e bem, 14 oliveiras. À mais grada não desculpo, vai para lenha. À miúda, alguma será para acender o forno, a outra junto-a às folhas e, medas com elas. Está lindo o quintal, a passarada já ganhou confiança, mal sabe ela que não vai tocar nas cerejas. Não me perguntem como, para não saberem o que é terror.
 
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sábado, 24 de novembro de 2012

D'arquiteto, com ingenuidade


Canon com sol pelas costas

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Véus


Longras, o que são? os dicionários não referem a palavra, nem sequer o "grande dicionário de língua portuguesa". O melhor que consegui foi a toponímia "Longra", vila do concelho de Felgueiras, que vem de "longara", registada legalmente no século XIII, com o significado de "achado arqueológico". A haver correspondência, Longras será então o seu plural. E pela lógica toponímica, na Quinta das Longras,  uma quinta escondida da freguesia de Turquel, onde se situam as oliveiras milenárias, poderão estar escondidos tesouros arqueológicos. Mas por nenhuma destas razões, nem sequer pelo melhor solo da freguesia, eu compraria esta quinta. A única: como é bonito vê-la a dormir, embora durma para não a vermos.

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pilhas de cadáveres

 
Mas aqui nota-se o volume
 
Quando o Jaquim estava moribundo o Afonso levou-me de pendura na motorizada a ver esta merda. Ainda a mota trabalhava e já eu soltava caralhos, foda-ses, perante o que via. E o Afonso, que conhecia a oliveira como ninguém, que podia gozar o panorama da minha estupefação, tontinho, pôs-se também a caralhar. Eu dizia: "nunca vi nada igual", e o gajo: "eu também não". Pensei sériamente  realizar um filme com o dono da motorizada, a oliveira e o moribundo. Muito simples: num vale bonito, uma oliveira milenária assistiria à decadência física da espécie humana, de mais um seu habitante. Quanto ao Afonso: naturalmente, o bom pisteiro. Não tive coragem, claro.
 
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

"Caravaggio, AC"


Ainda há poucos meses estava rodeada de silvas, quem passasse pela azinhaga de terra batida não se apercebia da magestosa grossura, aliás, mal se via; e apesar de estar sinalizada há muito tempo, coincidência ou não, a sua limpeza ocorreu desde que comecei a divulgá-la. É urgente a UTAD datá-la porque podemos estar perante um caso único de longevidade no país. A história da oliveira tem ciclos, se descontarmos os primórdios zambujeiros, podemos considerar o primeiro ciclo, o romano. A fotografia que apresento não revela a imponência do seu diâmetro, mas optei por esta porque me lembra o "pinheiro sentinela" de Ansel Adams, e também um outro pinheiro de um fotógrafo russo do século dezanove -, porquê? sobretudo pela "resistência solitária" comum às três árvores, e embora a "minha" oliveira esteja enquadrada ingénuamente ao centro, gosto ainda do sol-foco e das sombras escuras do fim de tarde do outono. Portanto, não se vê, mas é grossa! E é tão grossa que pode muito bem ser coeva dos romanos.

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Água, só água e venezianos

 
 
Parti duas brocas enormes, aí com uns 40 cm de comprimento, a furar o muro para escoar a água da varanda. Mesmo refrigerando-as com cuspo não resistiram ao betão.  O trabalho está péssimo, meti tubos pelos buracos e agora é necessário apará-los todos à mesma medida e pintá-los de uma só cor. Sim, brocas: não me posso esquecer que o pai do Ricardo amola-as. Yes, vieram-me à memória, não pela broca que furou o Canal da Mancha.
 
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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Nada vem do nada


Embora pareça não é um catálogo de azulejos
 
Já meti as mãos no material de Londres. Entretanto morreu o meu vizinho - mais uma estrela no céu, caramba -, e continuo com obras na Casavelha. O motor de submersão do poço tem a bobine derretida (motor pró caralho), os dias encurtam, a natureza transforma-se e eu, redondo, rebolo. Tanto, que já nem dou conta que os bébés estão crescidos.
 
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sol

A médica quis ser sentenciosa, disse que não viveria mais que um dia, no entanto já lá vão dois. Sangra muito é verdade, está a morfina e, suponho eu, em estado comatoso mas o Joaquim fez o coração à enchada. Os dias têm estado belíssimos, daqueles que nos recordam as brincadeiras de infância, e eu - se morrer -, que morra bébé. Mudei para um maço mais pesado, qual espada de Afonso, qual botas de Cavém, e parti o chão de ponta a ponta. Amanhã levo isolante e aplico, colo meias-canas no teto, e sábado tenho piso novo. Há dias. Dois dias em cada um.
 
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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Inspiradora


Todos de fato de licra

A Casavelha está linda, cortei o mato, estrumei a terra, dei uns cortes pequenos nas oliveiras, conservei as alfaias, tratei da lenha, tudo a cem à hora, mas ainda assim com tempo de ir ao quintal do vizinho e cortar-lhe a erva. O Joaquim está mal, não se quer pôr ao sol. Vai morrer como morrem os pobres, em casa e sem os cuidados médicos especiais que os oncológicos requerem. Perguntou-me se cortei a murta com o cortassebes e eu, contente pela novidade, disse-lhe que este ano andou tudo à roçadora. Ainda não o informei que fui, mais o Zé da Lurdes, ver as oliveiras milenárias. Vai ser bonito, «sabe quantos donos conheceram aquelas árvores?» e conto, e exagero: «mais de mil, ai!».

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