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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Os "dois dias" de cada um

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"Pescador"
 
À entrada para a maioridade interrompi abruptamente o estilo de vida que levava. E se é verdade que o meu coração trabalha ainda com a corda da liberdade, do sol, da vadiagem e dos charros, ainda é mais verdade que a mudança deu-me outros ganhos. O que ouvi hoje deixou-me perplexo. Um amigo, que não interrompeu, nem suavemente, a vidinha adolescente, e de quem eu perdi o rasto há muitos anos, está vivo. Parece que sobrevive num «steady state» semimarginal. Como será o aspeto dele, tez gretada e curtida pelo sol? Transpirará liberdade? O que em mim é saudade, serão nele cicatrizes? E o abraço, entre um rendido e um meio-integrado? Seja como for, estou perplexo por ambos. 
 
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Balanço de ciclo

Nenhum ditado de janeiro me consola. E vai ser assim o janeiro, o fevereiro e o março, logo a época do ano que eu mais gostava de acompanhar: desde que estou em Portugal, os dias sempre cresceram, na contabilidade da luz, às minhas cavalitas e relinchos. Os meus olhos, como se especializaram ao muito, muito longe, veriam um fabuloso inverno 2013 em estrelas, mas nem isso vou poder fazer neste trimestre. Vou sim, é de apneia até abril. Mas nada de mal vos acontecerá, com batota e sempre que puder, virei aqui para a troca gasosa.
 
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terça-feira, 5 de junho de 2012

6 do 6 de 12

O 6 de Junho mais conhecido é o troante de 1944. No de 1957, nem as folhas se mexeram, nem os patos grasnaram na casa da dona Isolete.

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sexta-feira, 30 de março de 2012

1984 - Kléber

Um dia, cedo, apareceu-me no portão do Cemitério de Santa Maria o Kléber. O Kleber era, e se está vivo ainda há de ser, um médico brasileiro que andava em tirocínio pela Europa a fim de ganhar coragem para voltar ao Recife. Fez o curso na republica da Casal Ribeiro em Lisboa e foi lá que o conheci. Saudações feitas, contou-me que lavava doentes mentais perigosos com mangueirada. Numa cela com grades, o doente, nu, ora virava-se de costas, ora ficava de frente. Havia dois tipos de jatos, com sabão e só água. «não há 'aclaramento'?» - perguntei, fazendo humor. «Eles gostam pr'a caralho, Paulo».

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quarta-feira, 28 de março de 2012

Só para borlistas

...É a voz do patrão.

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sábado, 24 de março de 2012

Meias-solas



Fui arquivar umas revistas à 'casa-velha' e de caminho passei pelo Jaquim. Estava mais animado, «com mais força», e tinha visitas, um homem dos seus oitenta anos, calejado, limpo e com as calças salpicadas de lixívia. Por cada palavra que dizia sorria como se tivesse largado pela boca um lagarto azul. Eu nunca tinha ouvido falar em ranchos para as vindímas do Cadaval e já estou na região há mais de vinte e cinco anos, mas parece que era habitual na década de cinquenta. Faziam os sessenta ou setenta quilómetros a pé. -«Chamavam-nos 'malteses', e não sei... mas a palavra soava-nos a 'escravos'».

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terça-feira, 13 de março de 2012

Zoom


O semhor "três mundos"

Nenhuma fase da nossa vida é integralmente regulada pela própria vontade, mas no período de crescimento, o pobre ânimo é literalmente levado pelo mundo. Pelos outros. Mantemos a cabeça à tona e lá vamos, e uns amadurecem bem e outros mal. No meu caso, a subtrair-me à vontade dos outros, tive que me defrontar, desde cedo, com uma fera de dentro: estados de pânico. Posso dizer que esta dificuldade suplementar fez-me um excêntrico opositor de mim próprio, mas também um excelente mediador entre mim e o mundo.
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domingo, 4 de março de 2012

Lições da porta


Quando vou à mercearia aqui ao pé de casa pergunto aos donos como vai o mundo. Eles têm uma mundividência muito típica, explicam tudo pelos trocos, estendem a velha contabilidade à política e ao país. O "deve" e o "tem a haver" sai da mercearia e dá duas voltas ao globo e volta numa breve síntese. Assim vão as coisas. A sociedade é exageradamente insegura e mal governada, mas não deixam de ter a sua lógica e o exercício desta mesquinhez é um bom temperador para os caráteres, convenhamos. Fui ver "a dama de ferro". O pai de Margaret Thatcher tinha duas mercearias e a rapariga levou uma das caixas registadoras pela porta fora e levou-a porta-a-porta. Voltou mal, claro. O mundo devolveu-a em trocos: ferrugenta pela humidade e demente ou quebrada pela fixidez do ferro.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Corantes



A noite no planalto, a noite limpa do planalto é tão noite que nada fica de fora do seu manto, nem as estrelas - que se veem como se tivessem saído à rua -, nem as vozes dos bichos - que nos contam segredos -. A noite no planalto angolano parece que tem um filtro mágico, um corante negro que faz sobressair o relevo das almas. Recordei-me  agora das noites angolanas por ver uns cães vadios na Benedita. Um dia, alguém me disse que a questão de deus é a falta de um órgão dos sentidos que fosse especial, que o cheirasse, por exemplo, e nesta ordem de ideias, as coisas seriam tão simples que deixaríamos de ser os cães vadios, ainda que farejadores, e passaríamos a ser parte do cenário de dentro para fora como nos sentimos nas noites angolanas.

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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Fasquias


O limiar anaeróbio é uma fasquia muito interessante, quanto mais alta a tivermos melhor, mas ultrapassando-a perdemos. Não é necessário entrar em explicações técnicas, para o caso basta perceber a importância da sua função e da sua mobilidade. Todos nós temos um limiar anaeróbio, quem for resistente, por exemplo, o seu limiar é muito alto, quem tiver uma má condição física o seu limiar anaeróbio é muito baixo - necessita de máscara de oxigénio para subir um lancil. O conceito desta tolerância precária ao esforço pode servir de analogia ao 'limiar social' que não só varia de pessoa para pessoa mas também de época para época, dependendo das condições económicas e políticas. Na Alemanha de trinta, do século passado, o limiar de tolerância social foi baixando sem as pessoas se aperceberem. Não foram só os pogrons, às tantas, dizem os livros, iam buscar um velho, um judeu, um deficiente, um homossexual, e a vizinhança acabou por achar normal e tolerar a exterminação. A frase de Pedro Passos Coelho sobre a emigração dos professores revela a descida de um nível neste limiar de sensibilidade social. É apenas um degrau, talvez muito pequeno, mas depois poderá vir outro, e outro e outro. Desligar máquinas, eliminar pessoas... Mas o embrutecimento é real, ouvi pessoas a darem razão ao primeiro-ministro sem se aperceberem que há poucos anos considerariam a opinião dele chocante. Limiar ao alto, não tanto para a história nos absolver ou salvarmos listas de almas, mas para respirarmos. Ou para não passarmos a fasquia por muito que tentemos.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Arte canária - pró acordo


Talvez o maior poeta vivo da língua portuguesa seja o Manoel de Barros. A saudade pode ser melancolia mas rã, pedaço de chão que salta, não tem equivalente noutras línguas. No Báltico não sei como diriam, cinzenta a terra que piso, porque nenhuma língua vive só de palavras e sem poesia, nenhuma. E o absolutismo da poesia coincide e morre com a realidade, é o cheiro, as chaves*, o calor, a cor, a respiração, o vento da anhara, a surucucu, o sangre raiano. Aceitam-se exercícios metafísicos e até comparações de significantes mas a poesia é o agnosticismo puro e total, como o chão de Manoel de Barros, o que pisamos ao fim  e ao cabo.
 * as chaves
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dª Pureza


Se há de se dar ao rato, dê-se ao gato.

Sempre que tinha conhecimento de disputas de heranças a mulherzinha comentava jocosamente o egoísmo que se apoderava dos herdeiros. E a sua superioridade moral estava bem escudada no nulo património dos progenitores: não tinham terrenos, nada de casas, nada de automóveis, nada. Nada? Não, «só temos uma cafeteirinha irrisória». Mas dias depois da morte da mãe, já viúva, perguntou ao irmão, «viste a cafeteirinha? ...olha, fui eu que acompanhei a mãe à feira quando a comprou».
  
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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Natural


Sobre a minha dificuldade em escrever - repare-se que para um pequeno parágrafo como o anterior, fiz duas ou três versões -, tive há dias uma opinião de quem me conhece desde criança. Disse-me ele que eu comecei a falar aos seis anos. Não deve ser verdade, posso ter começado a falar aos três mas aos seis, não. E também é verdade, já o afirmei, que eu articulei mal as frases até muito tarde. Mas o que é engraçado no meio disto tudo não é uma coisa, mas duas coisas, três. A primeira, o meu irmão começou a falar ainda no berço, disse, a segunda, que a primeira pessoa a perceber o que eu dizia foi ele e a terceira é que somos os dois génios.

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sábado, 7 de janeiro de 2012

Burro de carga


A determinda altura da nossa vida haverá razões objetivas para pararmos de correr. Suponho que até serão fáceis de elencar: físicas, sociais... Só não compreendo os meus motivos, mal explicados, da vontade de não fazer nada. De ficar absolutamente só. De falar a todos de igual modo e afeto. E por cada habitante da terra que se cruzar comigo, mais uma gota, mais leaves, mais ar respirável. Se pudesse era já hoje, ia ao café e... nada. Jacó, uma imperial.

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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A vida vale a pena se for temida pela morte


A morte o que mais teme é a vida. Oscar Wild disse o contrário: o que a vida mais teme é a morte. Também está bem, mas dito desta maneira colocamos a morte no centro das nossas preocupações e, para o caso de não sermos crentes, a morte como sessação definitiva, torna a nossa existência deprimente; se formos crentes, e, "temermos a morte" como diz Wild, não vivemos: estamos mortos por antecipação. Por isso, se for a morte a temer a vida tudo muda: cada segundo de vida é uma humilhação para a morte. Ainda que morramos, a vida foi gloriosa e venceu em toda a linha. Parece um sofisma, no entanto é assim mesmo, a morte teme aquele que ama a vida.

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