quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eu, glorioso já




A morte não tem nada de pessoal. Ou tem, um cemitério bom para mim seria por exemplo a Casavelha, as cinzas no cebolal. Tudo à medida: a minha irmã, confusa mas próxima, «passou a vida a enganar toda a gente», os cães do vizinho a cheirarem a rama dos cebolos, a chuva que lava a entranhar-se terra adentro; é verdade que nada disto me absolveria do silêncio, mas seria um fim sem compromisso com os extraterrestres dos cemitérios de pedra. A morte nada tem de pessoal na grandeza do tempo, tem, quase turisticamente, uma função: renovar a vida. E só vista à lupa é que nos toca: micróbios. Truques. Ajaezem-se os mortos ao gosto dos vivos.
 
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