domingo, 15 de abril de 2012

Heráclito

Alguns cadáveres dos sem-abrigo apareciam-nos no Santa Maria da mesma forma como viveram: fétidos. Parece que era a burocracia fúnebre a facilitar o desaparecimento rápido destes corpos. Em Portugal o sem-abrigo tem uma aura especial, crê-se que são «pobres» da classe média ou alta caídos em desgraça. Ou «filósofos». Há muitos anos, antes de Sá de Miranda lembrar que o mundo é composto de cousas vãs e mudaves, um grego, de seu nome Heráclito, afirmou que nenhum homem tomava banho duas vezes no mesmo rio. Esse grego morreu velho mas morreu com o cheiro dos sem-abrigo, besuntou-se de esterco.

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